DIVAGAÇÕES SOBRE EXÍLIO, RAZÃO E LITERATURA


DIVAGAÇÃO I.: A PROPÓSITO DO EXÍLIO E DA RAZÃO

Escrever neste momento sobre exílio em um mundo de exílio é, sem dúvida, escrever sobre a nossa época. Falar sobre arte ou literatura em um mundo positivista e de guerra é não falar sobre a nossa época.

(A arte e a literatura, à margem de seu desenvolvimento histórico, refiro-as a um período sem tempo; refiro-me a esse momento de movimento interno do ser humano que subjaz fora da história e onde esta lhe dá apenas o quadro casual do que já pré-existia).

No entanto, não se trata aqui de pregar ou expressar um pensamento geral sobre a universalidade dos exilados. O propósito desses esboços de ideias é, mediado pela categoria de razão, expressar algo do universo do exílio e da literatura captada pelo conceito de razão, o que não impede que, em determinados momentos, ambos os conceitos – literatura e exílio – nessa relação iniciem voos totalmente independentes um do outro.

Também não me seria possível falar simplesmente da razão sem nela pregar algo. A razão entendida como exercício que faz e se torna, como essa atividade que unifica os conhecimentos do entendimento e do sentimento, e que se manifesta ao longo da história, revelando-se em uma multiplicidade que expressa a própria multiplicidade da alma humana. Ela vem conformando desde tempos indefinidos, de maneira processual, os nossos universos existentes e, por outro lado, delineando os universos desejados, ora no silêncio dos recintos íntimos, ora no tumulto de nossa exterioridade.

É interessante observar que, nesse semi-silêncio ou nesse escrever em meia voz, os elementos da minha equação – exílio, razão e literatura – se complementam negativamente, quase dolorosamente, eu diria.

O exílio intelectual (não falo do econômico nem dos que se exilam por amor) se mostra e se mostrou como um produto necessário de uma razão dominante em seu devir. Ela é a razão funcional, dominando e submetendo os sentimentos. (Refiro-me aqui àquele instrumento humano que, em sua ação, não se pergunta por fins, mas sim por caminhos).

Ou seja, não é a ocasionalidade de uma ou outra ditadura a causa primeira das expulsões e crimes. As ditaduras não são outra coisa senão o instrumental de um tipo de razão imperante que se expressa radicalmente por meio dessas forças.

A literatura e a arte, por outro lado, são geralmente os sentimentos tentando se impor e se elevar sobre essa razão funcional. Essa tentativa se expressa e se canaliza por meio de outro tipo de razão, transbordada em uma linguagem como capacidade do ser para criar mundos, como um poder que institucionalizamos, para falar em palavras de Wittgenstein.

Ao falar de exílio, não me é possível limitar-me apenas à acepção de dicionário do termo (sou um convencido de que a unilateralidade empobrece a realidade).

Como sabemos, pela variedade de desterros que nos são mostrados, como seria possível não falar dos exilados de aqui e de ali, daqueles exilados ou re-exilados em sua própria pátria ou em seu próprio espírito, ou pelo menos recordá-los? Não é difícil, então, perceber que nós, os de fora, estamos também, de muitas formas, dentro, e que aqueles exilados de dentro se encontram, de muitos modos, também fora.

O drama do exílio se expressa, assim, também no sentimento de ser o que se é sem sê-lo completamente, de uma essência truncada, já independente de espaços e lugares geográficos. É o sentimento de toda alma dividida buscando sua unidade.

No fundo, somos atores que jogamos a vida tendo como cenário uma cenografia emprestada, ansiando por aquela que perdemos ou por aquela que ainda não encontramos.

Se o exílio é o drama da alma dividida, que pende em um sentimento de vazio por um longo período de tempo e fora de nossas raízes, então estamos condenados a nunca mais nos encontrarmos em uma unidade: seremos estrangeiros aqui e ali.

Vagamos por mundos carentes de referências claras, pois não fui parte deste desenvolvimento, desta história, e já me falta para sempre aquela que perdi do outro lado do oceano.

É a história do meu assincronismo existencial, que revelo em minha linguagem, em minhas atitudes cotidianas, em minha literatura; que talvez reflita até no esforço de uma catarse intelectual, mas que, como um espelho fiel, devolve profundamente a minha própria figura incompleta. Nem o retorno, nem a volta me salvam mais.

Minha bagagem já era estranha a estas terras quando cheguei, e será ainda mais estranha em um retorno: a experiência do exílio me converte para sempre em um ser exilado.

Os acontecimentos me transformaram e interiorizaram em mim o ser um estrangeiro em todas as partes. Essa estranheza e essa perda que se multiplicam, eu expresso em minhas letras como a dor de um amor perdido, como a mulher que amo e não posso possuir, e me afundo no devaneio .

Digressions about Exile, Reason and Literature

Carlos H. Cortés-Aravena